<19.10.05>

Boca raton.

Neste espaço aberto sinto-me pequeno, minúsculo.


Na rua, rodeado por outras pessoas, sinto perigo. A insegurança faz-me acelerar o passo, faz-me olhar por cima do ombro.

Fujo para dentro da terra, desço escadas a correr. O tecto que me esconde o céu, as paredes que me rodeiam cobrem-me com uma sensação de segurança - quero morrer aqui embaixo, quero nunca mais ver o azul do céu. Quero viver numa toca.

<17.10.05>

À sombra.

Quente como estava o dia, a sombra era convidativa e dirigimo-nos para debaixo da árvore. Sobre a relva estendi a toalha azul, onde te deitaste perguiçosamente. Perdi-me um pouco a olhar para os ramos e folhas pendentes sobre as nossas cabeças, só depois me sentei ao teu lado.


Já tinhas adormecido...

<12.10.05>

Tempo cinzento.

Os céus começam a ficar mais escuros e a água cai perguiçosa e pesadamente sobre a cidade, cobrindo-nos com uma humidade que já estava esquecida.

O lixo vai começar a entupir as sarjetas, o ar dentro dos autocarros vai passar a ficar irrespirável, as roupas chegarão encharcadas aos locais de trabalho.


A chuva chegou.

<11.10.05>

Em fuga...



Fujo. De ti, do que com razão me acusas, do que me fazes admitir, de como me fazes sentir.

Fujo. De mim, de quem vejo ao espelho, fraco e indeciso, das coisas que tenho de fazer, das decisões que tenho de tomar.

Fujo. De nós, das nossas discussões, das nossas diferenças, das nossas semelhanças, do que faremos quando eu parar de fugir.

Fujo. Por ti, por mim, por nós.

<10.10.05>

O átrio.

O átrio parecia exalar um mau cheiro, à luz daquela lâmpada esverdeada. As grades ferrugentas, a tinta branca descascada há já bastantes anos, formavam ali como que uma pequena varanda. Alguns degraus das escadas estavam sujos com o vómito de adolescentes que às vezes ali se sentavam, de madrugada, a beber cerveja barata e a fumar charros. Ao pé de um caixote castanho, encostado a um pilar marcado com frases obscenas, lixo cobria parte do chão, encharcado aqui e ali pela água suja que saía de um cano rebentado.


O vidro era fino, fino demais para afastar este cenário de quem estivesse dentro do prédio. O átrio era corrupto, já o era há muito tempo e a pálida luz de nada servia...

<9.10.05>

No escuro da sala.

Ao veres o filme, ficaste fascinado com aquela presença no ecrã da televisão. Os seus olhos, nariz, boca, cabelos, voz - tudo te enfeitiçou e, quando o filme terminou, quiseste logo vê-lo de novo, desta vez saltando as partes em que ela não participava e pausando nas cenas que apresentavam um grande plano do seu rosto.


Tentaste depois ver outros filmes com a mesma actriz, mas não era a mesma coisa. Eram outras frases, outros gestos, outros comportamentos que ela tinha, não aqueles que te tinham feito reparar nela.

E assim te apaixonaste por aquela mulher, naquele filme em particular, que começaste a rever vezes sem conta, sentado no chão da sala escura, perto da televisão - os teus lábios muitas vezes perto da superfície do ecrã, mas nunca se atrevendo a tocar-lhe...

<7.10.05>

Sob o telheiro.

Estava um fim de tarde estupendo. A esplanada estava vazia, por isso largámos as nossas coisas e sentámo-nos à vontade sobre os puffs. O sol aconchegava-nos os corpos cobertos de areia e fazia despertar na cabeça uma dormência confortável.


As bebidas que pedimos espevitaram-nos um pouco e a conversa (sobre tudo, sobre nada) começou a ficar mais solta e disparatada. Eu observava-o enquanto falava, olhando para as suas pernas, cara, braços, cabelo. Sem que notasse, poisei a minha mão sobre a dele. Reparou apenas passados alguns minutos, e parou de falar. Olhou para o mar, e disse: "Vamos?".

<6.10.05>

Cheiro estranho.

Acordou fechada numa sala escura, iluminada apenas por uma estranha luz colocada no tecto. Depois dos estranhos acontecimentos no bar, o que se estava a passar não era nada claro. Quem a teria colocado ali? Por que razões? E o que iria acontecer agora?

Encostando um ouvido à única porta existente, escutou algo que não conseguiu compreender - um raspar irregular mas insistente, aparentemente ao nível do chão. Um cheiro extremamente forte e desagradável chegou-lhe então às narinas. Excremento e lixívia misturados com outra coisa qualquer. A intensidade era tal que os olhos lhe começaram a arder e teve de se afastar da porta.

Ainda sem saber se deveria tentar chamar a atenção de quem quer que estivesse do outro lado da porta, rastejou até um canto da sala, sentou-se no chão e começou a recordar a noite passada.


<5.10.05>

Intenções.

A estrada à frente uma folha em branco, decidiram avançar sem um objectivo determinado, tirando à sorte em cada cruzamento para saberem qual o caminho a seguir. Com esta pureza de progressão no mapa esperavam conseguir uma progressão espiritual perfeita e tornarem-se assim pessoas mais completas e equilibradas.


Pararam no primeiro café que encontraram, para comprar um pacote de batatas-fritas e duas Coca-Colas...

<28.9.05>

...

Sentados frente-a-frente, discutimos a situação. Eu não aguentava mais, tu não conseguias evitar ser assim.

As horas passaram e continuámos a expor os nossos respectivos pontos de vista. No fim, acabei por ceder e coloquei-me à tua disposição, deitando-me no chão.


Foste buscar os pregos e um velho martelo, ajoelhaste-te ao meu lado e começaste a marcar metódicamente no meu corpo o amor que sentes por mim.

<27.9.05>

Mudança.

Exausto de carregar os móveis toda a manhã, sentei-me um pouco. Olhei em minha volta. Estava rodeado de caixotes e sacos repletos de livros, pratos, panos, ferramentas.

Todo este trabalho valerá a pena? Será que toda esta acção resultará num novo eu, mais confortável, mais seguro, mais completo? Desconfio que não, mas sinto que não posso arriscar a que realmente seja isto que me vá fazer mudar e que eu deixe passar a oportunidade. É ridículo, eu sei, mas a vida está repleta de decisões ridículas.


Dei um pequeno mas longo suspiro, enchi o peito de ar e levantei-me.

<26.9.05>

O sorriso.

Na rua, para onde quer que se virasse, lá estava aquele sorriso feliz, idiota. Um sorriso tão puro que se tornava obsceno e causava repulsa.

Não aguentando mais, chamou um táxi e voltou a casa, desejoso de a ver e de lhe pedir desculpas. Mas era já tarde demais.

Ela tinha-o abandonado.

<25.9.05>

Eles.

Eles existem. Nós não os conseguimos ver, mas eles existem. É verdade.

Olho todos os dias para o céu, com um misto de esperança e receio. Sempre desejoso de os ver, mas sem saber o que significaria realmente para nós que eles viessem e se mostrassem, se apresentassem.


Não sei como reagiríamos - provavelmente mal, desconfiando dos seus motivos.

Mas eles existem. Existem e um dia virão.

<22.9.05>

Abandonadas.

As sandálias repousavam sobre a areia, o sol já sem a força de algumas horas atrás. Marcadas pelo uso, apresentavam sinais de muitas férias e muitos passos dados. Quem olhasse para elas conseguiria imaginar ruas, campos, casas sobre as quais tivessem passado e sobre as quais tivessem deixado a sua marca. As sandálias tinham histórias a contar, mas ninguém as queria ouvir.

Cansaço.

A noite ia longa e havia ainda muito que fazer. De qualquer maneira, fomos dar um passeio pelo quarteirão, para espairecer.

Parámos em frente a um prédio coberto de azulejos. A luz suja do candeeiro dava ao edifício degradado um ar de derrota, como um velho cansado a quem a vida tirou toda a força de lutar e apenas aguarda a morte.


De volta à minha secretária não consegui deixar de me imaginar naquele estado. Tive de ir à casa de banho, onde chorei durante cinco intermináveis minutos.

<21.9.05>

Um estranho no seu quarto.

Pegou então numa colher e, rangendo os dentes, arrancou o olho direito. Foi mais fácil do que pensava, apesar da dor. A roupa ficou manchada de sangue, mas nem reparou, fascinado como estava por esta nova presença no seu quarto.

Pousado sobre a cama, o olho parecia observar o ambiente à sua volta...

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